Carta Aberta

Pela Reabertura do Albergue de Peregrinos em Vila do Conde

Ao Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Vila do Conde

A Associação de Peregrinos Via Lusitana vem por este meio dirigir-se a Vossa Excelência a propósito do encerramento do albergue municipal de peregrinos em Vila do Conde — uma decisão que acompanhamos com crescente preocupação e sobre a qual sentimos o dever institucional de nos pronunciar.

A nossa Associação completa, no próximo dia 17 de maio, dezasseis anos de atividade dedicada à defesa, promoção e valorização do Caminho de Santiago em território português. Embora sediados em Lisboa, o nosso âmbito de atuação estende-se a todo o traçado dos Caminhos de Santiago no país, sendo a preservação das condições de acolhimento ao longo de todas as rotas uma das nossas missões fundamentais.

Importa sublinhar que, além de membro do Conselho Consultivo da Comissão de Certificação dos Itinerários do Caminho de Santiago em Portugal, a Associação de Peregrinos Via Lusitana é reconhecida como Entidade Promotora do Caminho de Santiago, por força da Resolução de 15 de maio de 2013 da Secretaría Xeral de Cultura da Consellería de Cultura da Xunta de Galicia, que determinou a nossa inscrição no Rexistro de Entidades de Promoción do Camiño de Santiago. Este reconhecimento, que assumimos com responsabilidade, confere-nos não apenas legitimidade, mas também a obrigação de intervir sempre que esteja em causa a integridade da rede de acolhimento que sustenta a peregrinação jacobeia.

É precisamente essa obrigação que nos traz aqui.

Vila do Conde ocupa uma posição de destaque no Caminho da Costa. A cidade não é apenas um ponto de passagem — é, pela sua localização, pelo seu património e pela distância que a separa das etapas adjacentes, um ponto nuclear e fulcral para o planeamento da peregrinação, uma referência tida como habitual onde os peregrinos terminam ou iniciam o seu dia de caminhada. O encerramento do albergue municipal de Santa Clara compromete diretamente esse estatuto. Uma cidade sem albergue público deixa de funcionar como ponto de etapa fiável e é progressivamente excluída dos roteiros e guias de referência que orientam milhares de peregrinos todos os anos. A consequência prática é clara: Vila do Conde arrisca perder a centralidade que historicamente lhe pertence no Caminho da Costa.

Não ignoramos que foram apresentadas alternativas baseadas em alojamento privado e atendimento digital. Reconhecemos o mérito dessas iniciativas, mas elas não substituem a função que um albergue público cumpre na rede do Caminho. Um albergue municipal é uma infraestrutura de referência — é o sinal visível de que a cidade acolhe, de que participa ativamente numa rede europeia de mobilidade cultural e espiritual. É, em última análise, o que distingue uma cidade que está no Caminho de uma cidade por onde o Caminho simplesmente passa.

Temos acompanhado as iniciativas de outros agentes — nomeadamente a carta aberta do Grupo Amigos do Caminho de Santiago da Póvoa de Varzim e a petição pública promovida pelo movimento "Vila do Conde nos Caminhos de Santiago", apoiada pela Associação dos Amigos do Caminho de Santiago de Viana do Castelo. São vozes que partilham a mesma preocupação que aqui expressamos e que demonstram que esta não é uma questão isolada, mas um sentimento transversal a toda a comunidade jacobeia em Portugal.

Senhor Presidente, o Caminho de Santiago é um bem comum europeu. Cada município por onde passa tem o privilégio e a responsabilidade de o preservar. Vila do Conde tem todas as condições para ser uma referência de hospitalidade no Caminho da Costa — pedimos apenas que lhe seja devolvida a infraestrutura que lhe permite cumprir esse papel.

Apelamos, assim, a Vossa Excelência para que promova a reabertura do albergue de Santa Clara ou, em alternativa, a criação de uma nova estrutura pública de acolhimento de peregrinos, devolvendo a Vila do Conde o seu lugar como ponto de etapa de excelência no Caminho Português da Costa.

Colocamo-nos, desde já, à inteira disposição para colaborar neste processo, no que estiver ao nosso alcance.

Com os nossos melhores cumprimentos e um fraterno Bom Caminho,

Lisboa, maio de 2026

A direção

Associação de Peregrinos Via Lusitana